SEGUNDA
Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?…
… Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu…Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
COMPARTILHAR? GOSTAR?

Vou teorizar sobre romances cibernéticos, mostrar que as cartas de amor tomaram formas em mensagens para perfis aleatórios de facebook.
É simples, basta poetizar um desejo, falar sobre aquele jeito de menina que todo mundo deve dizer sobre ela. Afirmar que deve soar burocrático, mas pedir para não lhe condenar por concordar. Sim, não é por ser óbvio que não é real. Finja imaginar que há sim uma mulher cheia de certezas, projetos e planos de ação, todavia se não houver, deixe de lado tanta suposição e fale que vai se concentrar no jeito divertidamente ingênuo que vê em certas fotos dela, e isso será um argumento perfeito.
(Construa um frase óbvia que ela poderia dizer)
- Mas será que esse menino me conhece? Seria ele um stalker tipo americano bizarro que escolhe uma mulher ao sabor do acaso? Eu?
(Responda para as linhas para tentar criar uma conversa inexistente)
- E eu não vejo problemas em responder.
Admita que nunca a viu pessoalmente e para soar sincero, se enquadre sim em stalker, não do tipo serial killer, mas um tipo bonzinho e bobo o suficiente para apostar que esse tipo de abordagem pode realmente encantá-la. Nessa hora arrisque que a encontrou por acaso, marcada na foto de uma conhecida e aquilo foi suficiente para gerar aquela pergunta: “Quem seria essa guria?”. Uma menina bonita em uma foto, como tantas outras, mas porque não alegar que foram os interesses dessa menina que a fariam vir a ser interessante para mim?
(Aí vem mais uma linha de dialogo, mostrando que se interessa com as possibilidades de pensamento dela)
- Mas quem é você? O que gosto que te faz se interessar? Você é realmente maluco - Quem sabe isso se passa na sua cabeça.
Então do nada se diz ser um cara com esperanças de conseguir em apenas algumas palavras chamar a sua atenção, não para te pedi-la em namoro, não para arriscar um romance, não para provar que és diferente de outros caras. Seja o cara que acredita que o piegas está em quase tudo, inclusive no querer conhecê-la, está na vontade de trocar algumas palavras a respeito da série de tv que ela mais gosta, inventar teorias a respeito de uma letra de música, defender conceitos tão avidamente que no final um sorriso dela vai escapar diante de tamanha bobagem. Diga que acredita sim que é piegas o que pede dela e que isso não só uma solicitação de amizade aceita, mas a disposição de deixá-lo descobrir mais dela e se apresentar do mesmo modo.
Para encerrar, admita que é pouco ver tantas possibilidades baseado só em um vídeo da cena final de The Graduate, de uma música de Simon and Garfunkel, citações sobre 500 days of Summer e um aparente senso de sarcasmo que raro se encontra em pessoas.
Saiba que isso não justifica, mas o que seria de você se não acreditasse? (Vai ser bom mostrar-se um pouco sonhador).
Depois de tudo, basta esperar ela gostar, compartilhar ou cutucar. Afinal de contas ninguém está preocupado se ela vai responder.
Geraldo DeLima
CONTRA ALTOS & BAIXOS
Eu aposto que teu canto é um conto para que eu possa imaginar mil coisas. Conjecturar ou até deixar de lado o pensar. E para que então pensar se posso me envolver no teu falar em canto? Porque faria qualquer coisa diferente de notar teus tons e notas?
Sim, isto é uma dança, cantiga de roda, roda comigo de mão dada sem pensar na próxima música, sem querer decidir se vamos estar afinados ou não, que seja bobagem não improvisar. Esta é nossa peça pronta, tocada por orquestras compostas de sentimentos vocais, visuais, silenciados, desafiados e por que não dizer esquecidos, pois nem sempre lembramos da música que queremos ouvir.
E entendo que seu canto seja só seu, só que seu cantar é alto, contra altos e baixos eu sim me arrisco a acompanhar a melodia. Talvez por ser pop britânico enquadro tudo como cabeças de rádio, um oasis, um inseto feito joaninhas que aparecem quando você acorda.
- Estaria errado tentar arriscar o notar?
- Quem sabe não…
Queria tocar bem mais canções, em algumas delas até me aproveitar e tocar você, tocar uma canção de ninar, afinal de contas tudo começar quando estamos prestes a dormir.
Geraldo DeLima
Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
¡Ah los vasos del pecho! ¡Ah los ojos de ausencia!
¡Ah las rosas del pubis! ¡Ah tu voz lenta y triste!
COM O AVAL DA CARNE
Eu permito que se faça tudo comigo. - Me faz de idiota, me trata como objeto, me deixa com desejos, me diz palavrões, me pega de jeito, me canta barato, barato me encanta também. É isso, eu permito, mas não todo mês, não todo o ano, não todo dia. Deixo sim, porém somente nesses dias da carne, neles pode fazer tudo, mas tudo mesmo, essa não é época para resguardo, é tempo para desregrar em sodomias, vestir fantasias, realizá-las, seja com uma ou mais pessoas. É o tempo de perder freios e para que serve eles mesmo? - Vêm! Venha logo, pra quê ficar aí parada? Isso… Vem mesmo, minha boca está puro ziringuindum, minhas mãos ritmadas com a batucada, meus toques frenéticos ao som do frevo. E no teu aproximar, o sobe e desce acontece. Todo mundo pro lado de lá, todo mundo pro lado de cá, você sobe e eu te desço repetidamente como um transe. Eu me permito, mas o que importa é que você me permite. Não existe o “NÃO”, existe o “SIM” e quem é que se importa se este beco tem gente demais? E no pacote vem a chuva, vem o cheiro de mormaço, o suor salgado escorrendo doce com a água. Tem as pedras já cansadas de tanta história, de tanto disse-me-disse. Tem os casarões inspirando você ser minha casa. Tem a corda libertando os interesses. Tem cores ruivas, loiras, orientais, morenas… Que pena ser feito de carne e osso, que desgosto que tenho de ser um só. É assim. Estou completamente alheio, sou permissividade. Nesses dias, somente nesses dias sou aval, o aval da carne, só nos dias ditos, não todo mês, não todo ano, não todo dia. Só no carnaval Geraldo DeLima
UM COSTUME
- Vamos escrever algo para acalmar o coração. Eu digo isso quando a razão não consegue mais segurar o que faz o peito bater mais forte e transformar lembranças em saudade. É como uma última tentativa, um desespero, um tentar não imaginar que a pessoa já seguiu em frente e esqueceu daquilo que acredito ser o que realmente importa. Isso é piegas, talvez até soe falso e imaturo, mas no final de tudo é assim que muitos se sentem, é desta forma que muitos sofrem, e não seria diferente comigo. Sentir… Ouvi dizer que esse é um mal da minha geração, uma geração que perde tempo tentando dar significados a algo tão abstrato que se perde nesta tentativa. Não há como, é improvável tentar explicar um sentimento, seria mais fácil explicar modelos de ideias, ideais, pensamentos. “Não me pergunte como me sinto”, parece até algo que uma grande figura pública diria, acho até que vi isto em alguns dos filmes que vi este final de semana, mas que se danem, eu pego emprestado e repito: - Não me pergunte como me sinto, me pergunte o que eu penso. O que penso é que as coisas se complicaram demais. Fiquei impaciente. Joguei pela janela as possibilidades, pois achava que não as merecia. Era claro que tudo estava a nosso favor, ela disposta a passar por cima do que lhe deixava triste e insegura, disposta a se entregar como nunca cogitou fazer com ninguém, disposta a entender o que sua idade não permitia. Tudo estava claro e eu como de costume não quis enxergar. Desde aquele final de 2005 que eu não acredito mais em oportunidades, porque haveria eu então de acreditar em disposições? Eu penso que estraguei tudo, como o fiz em 2005. Não nos mesmos moldes, não sou tão idiota assim, mas pelos mesmos motivos. - Oi, bem vinda insegurança. Não acho justo ver alguém se dedicar tanto, abrir mão de tanto, tanto se esforçar e eu sem o mesmo fazer. Isso me fez esconder por trás de egoísmo e tantos ismos mais. Fico com medo do que a vida me oferece, estou o tempo todo me castigando por ter errado em 2005, por ter deixado os erros serem maiores que a disposição de estar junto. - Eu penso que não sei mais ser junto. Eu penso que não sei mais ser sozinho. Seria um castigo estar sempre a sentir saudade? Qual o propósito nisto? Seria karma não conseguir mais viver o se relacionar? Insistir em apostar nos fracassos amorosos como o recente? O que seria isso tudo senão meu fardo? - Vamos escrever algo para maltratar o coração. Eu digo ser isso sempre que estou para terminar o texto, a dor inspira. Mas não há dor alguma, há apenas saudade. - O que eu penso? Te respondo que penso que estou bem, mas não estou sentindo. E se sentir realmente não importa, penso que não há porque de sentir isso tudo. Talvez seja apenas um costume. Geraldo DeLima
RAZOAVELMENTE COM A RAZÃO

Existem algumas virtudes na vida de um publicitário. Porém, nenhuma delas se trata de ser razoável.
Somos insistentemente curtos de paciência, curtos em razão, até porque temos isso como propriedade privada, e nela há um jagunço armado até os dentes para o caso de algum desavisado aparecer tentando tirar a razão de nossos braços egoístas. O pior é que isso parece um contrassenso, é estranho sermos seres aparentemente cheios de razão e não sabermos ser razoáveis. Não sabemos agir conforme a racionalidade, ao direito ou à equidade. Somos cheios de pretensões e exigências:
- Não quero esse job! - Reclama o diretor de arte gordinho.
- Me sinto estagnada aqui! - Sussurra a redatora júnior que chegou há um mês.
- Ninguém me respeita aqui! - Grita o atendimento, já confundindo soluço e choro.
E não ser comedido nessas situações já virou commodity. Nem se considera tal possibilidade.
Ser razoável deveria ser agir com a razão/racionalidade, isso sim seria plausível, seria ideal já que passamos boa parte do nosso tempo inventando teorias para defender o que achamos ideal. Seria uma grande ideia, e existem poucas boas ideias no nosso lidar de publicitário. Todas elas morrem diante das razões erradas, diante da irracionalidade e seus jagunços tecnológicos munidos de artilharia pesada.
- Mas e as virtudes? - Pergunta um estagiário tímido e ainda sem mesa para trabalhar.
As virtudes, meu amigo, estão esperando um bom briefing.
Geraldo DeLima